Trabalhos premiados


Concurso Literário PALAVRAS DE AMOR
Casa do Novo Autor - Editora
Prêmio de Edição
SETEMBRO/1999



Um amor não invalida outro


Nas festas de Bodas de Prata sempre há muita emoção.

Para se chegar à "Estação da Prata" há que se percorrer um caminho de amor e compreensão passando por muitas estações de perdão. Não houvessem essas estações não se chegaria a tal celebração.

Estive presente a uma dessas festas que, devido aos seus ingredientes, se tornou especial.

Um deles, importante sem ser único, foi o noivado de uma das filhas do casal.

Outro, já corriqueiro para eles, é a coincidência com as comemorações do ano novo.

Mas um, que mil vezes melhor seria sua ausência, impediu que a comemoração fosse uma festa: o culto pelo sétimo dia de falecimento da mãe daquele pai de família.

Na homilia do ritual católico, o padre - amigo dos familiares - inicialmente fez as exéquias, depois fez um comentário sobre a iniciativa de promover aquela reunião, tão incomum dados os sentimentos envolvidos: dor e alegria, e, em função das bodas, disse:

"Nesses vinte e cinco anos, Deus fez, em primeiro lugar, com que a vida deles pudesse ser multiplicada nas pessoas de seus filhos. O amor que foi repartido. Cada filho uma expressão desse amor. Os filhos são a maior riqueza produzida por este amor. (...) Compreensão mútua. Ajuda mútua. Muita compreensão. Muito perdão. (...) Espinhos também são uma dádiva de amor. Eles o tornam mais forte."

No ritual de renovação das promessas do casamento, da benção e troca das alianças com uma linha de prata, "ouvia-se", aqui e ali entre os presentes, as lágrimas derramadas.

Terminada a liturgia, antes dos cumprimentos, o filho mais velho falou:

"A gente resolveu fazer uma homenagem. Nós os filhos somos a prova do amor... Essa plantinha é para simbolizar esse carinho, esse amor..."

A segunda filha, já casada, disse:

"Meu marido e eu pensamos muito no amor que vocês deram para a gente. O nosso presente é:"

E o genro, tocando uma flauta doce, comandou uma seresta com a participação de todos: --- Amo-te muito, como as flores amam / Amo-te muito...

A terceira filha, a que estava formalizando o noivado, ofereceu flores brancas explicando que simbolizavam a beleza que é a família e a união de todos. "Representa a pureza do namoro, do casamento... e de repente nós cinco aqui. Seis, sete, oito, quem vier... Obrigado pelo amor."

A quarta filha trouxe um livro, "simbolizando a educação que recebemos e o exemplo que vocês sempre foram"

"Eu sendo a mais nova, vou dar essa boneca
(engasgada, a filha número cinco tentava completar). Ela representa a infância... Foi muito boa... (olhou para os irmãos.) Junto de vocês todos."

Cumprimentos... Olhos molhados... Sorrisos...

Pouco depois, quando os noivos trocaram alianças, vencendo a tristeza que naquele "baile da vida" teimava em fazer par com a alegria, uma champanhe foi aberta em nome do amor. Palavra que os "pombinhos" disseram várias vezes.

Foi nesse instante que o chefe da família, aproveitando que tinha a atenção de todos, disse:

"Queria aproveitar essa deixa que vocês, noivos, me deram. Os dois usaram a palavra AMOR. Eu acho isso muito importante. Falar em amor. Mas um aviso: o amor não é estático. Ele tem infinitas formas e fases. Algumas fases bem difíceis! Quanto as formas, a medida que a vida da gente vai se transformando e vai agregando pessoas também ele, o amor, se mostra de formas novas. E um amor novo que você adquire não rouba o espaço do outro. Não invalida os primeiros, os mais antigos. Cultivando o amor pelos pais e pelos irmãos descobrimos o amor um pelo outro. Namoramos e casamos. Daí nós adquirimos amor pelos filhos, amor pelos genros que chegaram e estão chegando. A nora que certamente virá. E outros amores que a gente vai tendo através da vida. Já me discorreram sobre o amor de avô! Imagino que não demorarei a conhecê-lo. Um amor não invalida o outro. Uns dão sempre espaço para o outro."

Levantou o brinde. Não disse mais nada.

Nem precisava.



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