Trabalhos premiados


Arnaldo Giraldo - Editor
XV Concurso Internacional Literario de Verão - 2005
Premio de Edição
Publicado no livro:   Agreste Utopia - Volume I













Maravilhado


Numa de sua incursões no escritório de seu avô uma jovem encontrou um envelope, amarelecido pelo tempo, timbrado:

CEMIG - Centrais Elétricas de Minas Gerais
Obra de Construção da Barragem de Três Marias

Escrito a lápis, letras grandes: Janeiro de 1958.

Ela já conquistara a autorização de mexer nos guardados do avô, assim, sem cerimônia, bisbilhotou o conteúdo: um lenço. Ele deveria ter sido lavado e passado pouco antes de ser colocado ali. Lembrando dos ensinamentos do velho pensou:

— Isso deve ser um gancho-de-memória. Deve ter muita história...

Guardou o envelope no mesmo lugar e continuou suas pesquisas escolares, mais tarde, após o jantar, a garota lembrou-se do lenço e indagou ao avô sobre aquele lugar e aquele tempo: Três Marias – janeiro de 1958.

O velho fechou os olhos, sorriu. Depois de pensar um pouco começou a contar:

— Querida neta, foi um tempo e um lugar que deixou marcas profundas em minha vida, ainda que não tenha vivido muito tempo por lá. Posso lhe contar como homens sem medo domaram o Velho Chico. É assim que chamavam o Rio São Francisco. Posso lhe contar muitas histórias, já que seu bisavô foi um daqueles que trabalharam lá. Olhe: tem muitos “causos”.

— Desculpe vovô, não é isso que despertou minha curiosidade, pelo menos agora não. Depois vou querer escutar sobre isso também, mas agora vovô, estou curiosa é com um lenço guardado em um envelope. Por quê ele foi guardado? Imagino que ele é uma relíquia. Não é assim que o senhor fala?

— Relíquia? Um lenço? (um breve silêncio). Ele deveria estar mesmo em um relicário (outro silêncio). E você tem mais razão do que imagina. Ele não é apenas uma relíquia, é um relicário imenso... (olhando a neta nos olhos perguntou:) Quer mesmo saber? É uma história para quase uma hora?

A resposta não veio em palavras, mas em atos: a garota se acomodou melhor na poltrona e com os olhos pediu ao velho para contar a história.

— Antes de qualquer coisa um aviso...

— Aquele que o senhor está falando com palavras e coração de um velho, olhando para sua juventude?

— Isso mesmo. Aquiete-se e deixe-me contar. (Os olhos do velho furaram o tempo, sentiu-se em 1958.) Eu estava com o coração magoado, uma paixão frustrada ainda doía. Estava sozinho em casa, já que mamãe - sua bisavó - e meus irmãos haviam aproveitado as férias para conhecer o lugar onde papai estava trabalhando: a obra de construção da Barragem de Três Marias. Foi quando negociei com meus chefes, lá onde eu trabalhava, para fazer uma semana de descanso. Eles concederam e eu, usando uma das peruas da CEMIG que faziam o serviço de correio e transporte de passageiros para a obra, fiz a viagem até lá. O calçamento da estrada, veja que não era asfalto, era de pedra e só ia até Sete Lagoas, de onde, em estrada de terra, passei por Curvelo e Corinto. Cheguei em Três Marias no meio da tarde. Não lembro bem se passei ou não pelo escritório, mas o importante é que quando cheguei na casa que havia sido colocada a disposição de papai – ele tinha muito prestígio –, abracei meus irmãos e minha mãe e me surpreendi com a presença de Mara. Ela, uma garota dois anos mais nova que eu, é parente distante, mas muito amiga da família. Nossas mães tinham sido inseparáveis na juventude delas...

(Deu um suspiro e retomou a narrativa.) Mara não era bela, mas mesmo assim mexia comigo, havia uns quatro anos que a vira pela última vez. Tenho que reafirmar, naquele instante fiquei apenas surpreso e curioso. A tal mágoa ocupava muito espaço. Mara mesma me contou que quando da viagem de vinda, minha mãe havia feito uma visita à mãe dela, em Sete Lagoas, ocasião em que foi convidada para ir para Três Marias. Foi coisa de momento! No jantar daquele dia, todos tinham muita coisa para contar. A conversa se estendeu para além da sobremesa, o cafezinho foi demorado... Lembro que depois escutei, como era meu costume então, o rádio de ondas-curtas: BBC de Londres, Voz da América, Rádio Moscou...

(O velho conferiu, com os olhos, o nível de atenção da neta. Percebendo seu semblante atento, continuou:)

— Na manhã do dia seguinte, meu pai me despertou bem cedo, fui com ele conhecer o escritório central e o canteiro de obras, parte dele...

— Hei vovô! – interveio a neta -. Dessa vez não quero saber desses detalhes. Pule isso, não faz mal que a história fique mais curta, conte apenas o caso de Mara.

(O velho suspirou duas vezes, fez um silencio breve.)

— Quando retornei para o almoço, eu que havia colhido algumas flores do campo, as dividi em três porções, dei a maior a minha mãe, uma outra para Mara e uma menorzinha para minha irmã. Ouvi o agradecimento de cada uma das homenageadas, mas não percebi o charme que o gesto se tornou. Durante o almoço, em seguida a uma reportagem sucinta das minhas andanças, dei toda minha atenção à visitante, perguntei sobre seus pais e de cada um dos irmãos, que são muitos. Para você, neta querida, não há coisas importantes nesse dia. Eu retornei às andanças com meu pai, jantamos juntos – não lembro de nada em especial. Escutar rádio, o sinal de TV não chegava a Três Marias... e dormir.

— No terceiro dia, era um sábado, papai havia programado uma visita, de todos nós, ao arraial mais próximo: André Quissé. O trajeto, não foi muito longo, foi feito numa perua igual a que me trouxera de casa – havia muitas delas por lá – é certo que fiquei ao lado de Mara, e nas curvas, que não eram poucas, brincávamos de deixar o corpo espremer quem estava próximo. E gritávamos. No arraial é que um lenço entrou em cena. Havíamos, todos do grupo, caminhado pela praia do rio, apanhado algumas pedrinhas, brincado com terra molhada. Acho que andamos, a pé, por todo o arraial, ou quase todo. Antes de voltarmos passamos numa venda - era como chamavam o que hoje você conhece como mercearia -, compramos uns biscoitos, nada de pacotinhos, biscoitos feitos na venda mesmo... Pedimos água para lavar as mãos. Isso foi feito numa pequena bacia, trazida pelo vendeiro. O lenço serviu como toalha, mas Mara não o devolveu, disse que deveria lavá-lo antes. No caminho de volta não teve a farra da ida. A rotina do jantar e do rádio se repetiu. Há que deixar claro que quem ouvia o rádio era apenas eu. Muito tempo depois eu soube que essa atitude de ficar sozinho causava uma certa estranheza. Eu não atinava em nada.

— Vocês eram bem molengas naquele tempo...

— Respeito menina! Quer ou não quer ouvir a minha história, do meu jeito? Jeito daquele tempo?

— Desculpe vovô! Desculpe!

— Naquele quarto dia fizemos uma pescaria. De barco a motor, um barco bem grande, mas não era uma lancha, subimos o rio até o Ribeirão do Boi, onde diziam, havia um bom pesqueiro. Mas nós não éramos pescadores... Lembro que peguei algumas piabas... Mara também não pegou muita coisa, mas tivemos nossos momentos... Segurar nas mãos dela para ajudar iscar o anzol era algo de magnífico! (Um suspiro). Esse domingo o almoço foi bem mais tarde. Em seguida, um desalento, face aquela mágoa, tomou conta de mim, e eu desperdicei um tempo que poderia ter deixado recordações maravilhosas. Ai meu Deus! Olhando daqui, mais de 45 anos depois, me dou conta de quanto deixei de viver... Sai andando sozinho por aquelas paragens...

(A neta fez um caretinha e balançou a cabeça em desaponto.)

— Na segunda feira, passamos, eu e meu irmão mais velho – seu tio-avô -, o dia inteiro viajando com meu pai, fomos a Felixlândia, ele tinha assuntos a resolver lá. O resto ficou em casa. Naquela noite, quando voltei Mara me devolveu o lenço, passadinho como você o encontrou... E eu, estúpido, apenas cumpri meu ritual, jantar e ouvir rádio...

— Vovô, você não deu nenhuma atenção a ela? Quê que é isso? Só você era lerdo assim, ou era coisa de seu tempo?

— Olhe... Já lhe disse que ia contar do meu jeito... Faça seus julgamentos, mas não me agrida!

(Uma carinha de piedade, pediu perdão. O velho fez um intervalo mais longo, valorizando a sua compreensão e continuou:)

— Terça-feira, o último dia que, desta vez, passei lá foi impar, de manhã passeamos por todo o acampamento, era uma vila com casas de madeira, e visitamos o clube dos funcionários, onde havia uma piscina, não era olímpica, mas bem grande. Nadamos juntos, jogamos peteca... Muito flerte, era como aconteciam as coisas naqueles meados do século passado... Olhos nos olhos... Alguns sorrisos... Nada mais. Almoçamos em casa e depois saímos, a turma toda, para outra visita às obras. Eu como já havia feito essa excursão junto com meu pai, fui dando as explicações sobre o que era, ou melhor, o que viriam a ser, cada um daqueles lugares: barragem de terra, tomadas de água das turbinas, vertedouro... Aqui e ali, descíamos da perua para ter uma visão mais privilegiada. Eu ajudava “as damas” a descer do carro... O cheiro da terra sendo trabalhada predominava, mas ao chegar bem próximo de Mara para explicar alguma coisa, o perfume de seus cabelos me marcou para sempre... O jantar foi muito farto, não foi triste nem alegre, pois, mesmo sendo dois apenas, Mara e eu, os que despediam; uma vez que a perua para viagem de volta estava programada para a manhã da quarta-feira, mamãe e os manos sempre falavam da falta que faríamos. Papai fazia questão de dizer que aquela era uma obra que duraria muito tempo, e que certamente haveria oportunidade de novas visitas. Nessa noite eu não escutei rádio, ficamos, todos, conversando e, pensando que ninguém notava, flertando.

(O velho suspirou; a neta estava bem atenta, tinha vontade de dizer algo, mas preferiu calar-se.)

— Era bem cedo quando Mara e eu, junto com diversos outros passageiros, acho que uns oito, embarcamos na perua. Ocupamos o banco da frente, junto com o motorista. Ela na janela. Estrada poeirenta, não era possível grandes velocidades, a viagem levaria horas... Conversamos, eu e ela, sobre as coisas que acabávamos de viver... Lembro que em dado momento passei o braço sobre seu ombro... Ela reclinou-se no meu para descansar... De novo senti aquele perfume de seus cabelos...

(Os olhos do velho eram de encantamento. Ele ficou bastante tempo em silêncio. A neta, compreendendo aquele instante ficou muda).

— E não é que chegamos em Sete Lagoas. Na minha cabeça de então, e hoje também, foi a viagem mais rápida que já aconteceu entre Três Marias e Sete Lagoas. Ela desceu em sua casa. Morava bem próximo da lagoa... Com esse mesmo lenço eu limpei seu rosto empoeirado... Ela ficou com ele para, como já havia feito, lavá-lo e devolvê-lo.

(O velho estava com os olhos brilhantes, “maravilhados”... Sorriu para a neta e em gestos indicou que a história acabava ali...)

— Hei! Hei! Espera ai! A história não pode ter terminado ai... Você disse que ela ficou com o lenço, e ele está com você. Quero saber mais...

— Ah querida neta, esse lenço andou de mim para ela muitas outras vezes, a história de Três Marias – janeiro de 1958 acabou ali, a do lenço... Ah! A do lenço dá um romance...