Trabalhos premiados


Concurso Nacional de Poesia e Verso: Letras no Brasil III
Primeiro semestre de 2000
TABA CULTURAL Editora
Premio de Edição
Publicado na coletânea     Letras no Brasil III



Café sem açucar


"Professor" estava "sofrendo" um desses "ataques de limpeza" que vez por outra assaltam a todos nós. Já havia juntado num canto quilos de jornais velhos, revistas, cartas comerciais, contas de água, luz e telefone. Algumas com mais de cinco anos.

Quando venceu a etapa de revisão do passado recente resolveu fazer uma visita ao "baú velho". Nele há coisa que pertenceram a seus avós. Há fotos antigas, bijuterias de sua mãe, canetas tinteiro usadas pelo pai, documentos, cartas...

Uma visita dessas sempre provoca lágrimas...

Numa caixa de sapatos encontrou algumas coisas de quando não tinha vinte anos: uma carteira do Tênis Club, Controles de vôo do Aeroclube, nota fiscal de uma máquina fotográfica, um relógio Omega...

Quando a caixa já estava vazia percebeu que o fundo dela não era da mesma cor. O papelão era diferente.

"Engraçado, um fundo falso! Não recordo disso!" - disse a si mesmo.

Removeu aquele papelão com cuidado, encontrou um envelope endereçado: "Para mim mesmo, no futuro".

Um cantinho da memória iluminou-se. Lembrou que havia feito um curso de controle da mente -- aquilo era um dos exercícios --, havia se "comandado" para esquecer o ato de escrever a carta.

Naquele instante percebeu que o processo funcionou. Ali estava uma carta dele para si mesmo. Lembrou-se da circunstância de escreve-la, mas não tinha noção de seu conteúdo.

Se sabia ou apenas tinha intuição da emoção que o aguardava não é coisa para ser analisada.

Mesmo com o serviço inacabado saiu do quartinho. Deixou para trás a meia-organização e o lixo. Com a carta na mão foi até o banheiro, lavou as mãos e o rosto. Na cozinha ferveu água e preparou um copo de café sem açucar. Caminhou até seu escritório. Acomodou-se. Deu uma bicada no café, deixou o copo de lado uma vez que a bebida estava muito quente. Abriu a carta. Encontrou três folhas de papel.

Antes de ler a primeira página, em papel almaço pautado, se deu conta do quanto sua letra havia mudado, caligrafia mais redonda que atual, menos espalhada também. Então leu:

Primavera de 1957.

Engraçada essa idéia de escrever para o futuro!

Será que vai funcionar?

Dentro de você eu saberei as respostas.

Essa idéia, não sei se louca ou não, apareceu no curso que comecei há alguns dias. Nele eu aprendi a usar a caixa de preocupações.

Funcionou para "você/eu"?

Se sim, ótimo! Se não eu conto "de novo": é aquela técnica de escrever detalhadamente a preocupação, seja ela qual for, e coloca-la numa caixa. Depois de uns dias esvaziar a caixa e ler todas as preocupações. No curso ensinaram que noventa e cinco por cento delas são completamente sem fundamento. Com o tempo farei minha própria constatação e não precisarei mais usar a tal caixa.

O curso vai demonstrar também que ser feliz é uma questão de hábito.

Para o "seu/meu" bem, quero me habituar a ser feliz!

Na aula de hoje aprendi que posso deixar as tristezas no "porão", num canto que visitarei apenas se quiser. E posso colocar outras coisas lá também.

Pois é. Esta carta, o ato de escrever e o que escrevi eu vou programar para esquecer.

Lá no futuro tudo será restaurado.

Juntei a minha preocupação de ontem.

A outras duas folhas eram de "papel jornal" onde ainda se percebia alguns traços da tinta azul originadas de mimeógrafo à álcool. No verso, a letra atestava uma certa preocupação, estava escrito:

O lugar é a Cabine de Controle.

Estou escrevendo nas costas do roteiro de slides. É o papel que tenho agora.

O programa que está no ar é o filme Papai Sabe Tudo.

Estou muito aflito.

Gostaria de saber o que vai acontecer comigo na minha vida.

Há poucos meses a nova agência de publicidade comprou um horário novo. Isso trouxe muita gente para trabalhar aqui na TV.

Lúcia apareceu na minha vida.

Assim que vi seu rosto na telinha do controle de vídeo fiquei assustado. Emocionado. Sei lá o que...

Precisava ver de perto.

Quando foi possível ir ao estúdio as luzes de transmissão já estavam apagadas. Olhei em volta. Só o pessoal nosso. Fui até o barzinho, enchi minha xícara de açucar, tomei meu "café-melado". O alto falante avisou: 5 minutos para a Crônica Esportiva. Voltei ao SWITCH.

O dia seguinte foi minha folga. Mas na hora do programa novo eu estava aqui. Alencar, o iluminador, pediu que eu ajudasse a criar um ambiente diferente. A agência queria novidades.

Com um frio no estômago cheguei perto de Lúcia e pedi que fosse até o set para tentarmos uma iluminação especial.

Vi luz nos seus olhos.

E criamos a nova imagem. Com contra-luz e luz de cabelo.

A coluna de TV do "Estado de Minas" elogiou. A da "Folha" também.

Depois disso faço o possível para ficar perto dela. Ela ficava por aqui muito pouco tempo.

Agora Lúcia trabalha todos os dias. O produto que ela anuncia tem comercial todo dia. Quando não estou na cabine estamos juntos.

Esta insistindo para eu tomar café sem açucar. Disse que é melhor para a saúde.

Hoje, como se fosse brincadeira, porque assistimos no tele-teatro uma declaração de amor, eu dei a mesma fala para ela:

"--- Não nasci para ser seu amigo. Precisamos decidir o que fazemos de nossas vidas."

Ela não levou na brincadeira.

--- Estou assustada comigo. Isso é novo... Vamos esperar um pouco...

Agora estou aqui preocupado!

Que cabeça essa minha...

Não havia mais nada escrito.

"Professor" ficou longo tempo entregue às saudades. Muitas... Sorriu e chorou...

Quando retornou ao agora disse para si mesmo:

--- Não fui muito atencioso para comigo. Nem me despedi.

Pegou o copo de café sem açucar. Estava frio.



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              Jóias Editadas em 1999
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