Trabalhos premiados


Grêmio Literário de Autores Novos - GLAN, da cidade de Volta Redonda-RJ.
XIX Concurso - Segundo semestre de 2003
Premio de Edição
Publicado no livro:   XIX Coletânea de Contos e Poesias

Focando a XVIII Bienal do Livro - Ano de 2004, a   SCORTECCI Editora
selecionou alguns autores e editou, em dois volumes, a
Antologia   Livre Pensador.











Amor sem fim


O cenário de nossa estória é a festa do aniversário de uma jovem que estava prestes a terminar a universidade, foi quando boa parte de uma grande família se reuniu. Num apartamento médio de um bairro comum.

Os grupinhos que se formaram por interesses de idade, de família, culinários ou qualquer outro estavam espalhados pela casa. Uns três na sala, um na cozinha, alguns nos quartos.

Por acaso, enquanto examinavam os presentes, as concunhadas leram juntas e comentaram uma crônica escrita num dos livros dados à sobrinha.

O autor contava alguma coisa de seu romance na escola primária e confessava que, mesmo tendo perdido o contato "ela", sentia amor por sua namoradinha, um amor que ardia como brasa no borralho, um amor que não acabou. Um amor sem fim!

No grupo de Menina - engraçados esses apelidos de família -, ainda que a conversa resvalasse em política, esportes, dificuldades de viver em grandes cidades, sempre comentavam coisas do passado, entre essas coisas os amores da juventude. Por isso aquela crônica ficou ressoando na cabeça dessa senhora.

Mais ao fim da festa, quando já descontraídos por alguns goles de vinho, começaram uma cantoria, uma das músicas dizia:

-- Onde andará Mariazinha, meu primeiro amor, onde andará?
Na minha pequenina Miraí, eu era feliz e não sabia...


Essa música calou fundo.

Menina já não sabia o que estava acontecendo. Sabia que aquele vinho não era suficiente para embebeda-la. Então o que era aquilo que estava sentindo?

Foi uma das últimas a sair da festa. Estava com seus filhos mais novos, universitários como a sobrinha.

O trajeto até sua casa, mesmo com trânsito desimpedido, demandaria quase meia hora. Acomodada confortavelmente, deixou-se entregar àquele embalo.

Rememorou a tal crônica.

A música se apresentou com uma alteração sutil:

"-- Onde andará Menino, meu primeiro amor, ande andará?"

A partir dai começou a visitar os cantinhos de sua memória. Queria se queimar naquelas brasas de seu "borralho". As imagens estavam lá. Com todas as cores, perfumes e sons...

A princípio as recordações apareciam desordenadamente, acontecimentos de um tempo "mais recente" se mostravam seguindo um "lá de longe" e vice versa. Uma bem vinda confusão que Menina resolveu ordenar. Queria sequenciar os acontecimentos, no mínimo como ela achava que deveria ser. Sabia que um ou outro evento poderia não estar criteriosamente colocado no seu tempo, mas isso não teria "consequências". Assim construiu seu rosário de recordações:

Viu a si mesma chegando na escola para começar o segundo semestre do terceiro ano do grupo escolar. Ele estava lá. O novo colega. Tão pequeno ou tão grande quanto ela. Exatamente ao seu lado na fila. Ficou olhando para ele sem dizer nada. A fila andou e eles nem perceberam, foi necessário que fossem empurrados...

Prestou uma atenção muito grande na chamada. Queria saber o nome dele. Aprendeu imediatamente, entretanto, quando juntos raramente falava seu nome, só dizia: Menino!

Sentiu uma alegria fora do normal quando, naquele primeiro dia, ao sair da aula, desceram a avenida para o mesmo lado...

O sabor das merendas compartilhadas na hora do recreio...

Sua alegria pela vitória do Menino que, mesmo sendo novato na turma, foi eleito para um cargo no "Clube de Leituras"...

Sentiu, outra vez, a vergonha de quando, uma tarde, ele chegou de bicicleta e parou ao lado dela e da turminha que brincava perto de sua casa... Não sabe como aconteceu, mas ele, por artes próprias se integrou ao seu grupo de amigos e vizinhos.

As brincadeiras de Barra Manteiga, Esconde-esconde...
Os jogos de Banco Imobiliário, Xadrez Chinês...
Aprendeu a andar de bicicleta com a bicicleta dele...
O quarto ano escolar... Cumplicidades!

Nunca se conformou com o par que a professora escalou para a quadrilha da festa junina. Ela dançou com um colega muito alto e ele com uma gordinha. De fato estava engraçado, mas o que queriam mesmo era ter feito par um com o outro.

O cuidado com que desenhou em seu caderno de recordações. E a angustia de escolher o que escrever: Para você uma lembrança de nosso último ano escolar.

A festa de formatura do Grupo Escolar. 1950! Seu pai tirou muitas fotografias.

Como era estranho estudar em um colégio só de meninas... A falta que sentia do Menino.

Ele dava um jeito de passar de bicicleta justamente quando chegava do colégio. Mas isso não acontecia todos os dias.

Era a última vez que se vestiria de anjo. Foi quando coroou Nossa Senhora. A Igreja ficava bem longe de sua casa. Lá, do alto do altar, antes de cantar os louvores à Mãe do Céu, seus olhos encontraram os dele. Menino estava quase escondido, no fundo da igreja. Ele tinha ido vê-la.

-- Obrigado Nossa Senhora! Eu lhe dou a coroa e você trouxe ele até aqui!

A química de seu corpo começou a mudar. Tinha fantasias esquisitas! Não sabia porque imaginava brincadeiras, só ela e o Menino. E sempre escondido. Não contava disso para ninguém!

Quando, no colégio, uma Médica fez uma palestra para ela e suas colegas, explicando a verdadeira história dos bebês, entendeu a razão das suas fantasias. Imaginou que Menino seria o pai de seus filhos. Mas como faze-lo entender isso. A doutora explicou também que os garotos permanecem garotos por mais tempo. Só serão rapazes daqui a um ano ou dois depois das meninas, é quando, dentre outras coisas, eles trocam de voz...

Nessa época, julgando-se crescida, achava que menino era uma criança e para confirmar sua tese dizia: --Menino ainda usa calças curtas! Tem a voz fina. Entretanto sua coração lhe pregava peças: Algumas vezes, de uma janela entreaberta de sua casa, ficava observando o menino conversar com os vizinhos. Apalpava seu próprio corpo imaginando ser as mãos dele. Sentia calafrios...

Naqueles tempos namoro era coisa proibida! Só quando tivesse 18 anos!

Na convivência controlada e muito vigiada, o mais que conseguiam era trocar longos olhares. Longos mesmo! Olhos nos olhos por minutos inteiros. E, meu Deus! Quanto inocência! Imaginava que ninguém notava!

Então Menina mudou-se para o outro lado da cidade. Para uma casa nova! Longe... Muito longe... Mais de 12 quilômetros.

Algumas vezes ela o viu, domingo à tarde, perto de sua casa. Menino atravessava a cidade com sua bicicleta. Mas ele não se aproximava, ficava de longe tentado ve-la. Ela ia até a varanda. Trocavam olhares. Nem mesmo um aceno...

Lembrou também de tê-lo visto algumas vezes na saída de seu novo colégio.

Mas esses "encontros" foram ficando raros... As noticias chegavam através de seus primos, amigos dele também...

Soube que o pai de Menino teve sérios prejuízos com a empresa dele. Perderam tudo! Mudaram para um bairro mais pobre... Menino teve que trabalhar e interrompeu seus estudos...

Havia uns dois anos que não o via, estava estudando, à noite, em sua casa quando a empregada que morava com eles há muitos anos entrou em quarto chamando:

-- Menina vem ver na TV. Aquele seu amigo! Ele agora é artista! Venha... Venha logo!
-- Meu amigo? Quem?
-- Aquele do grupo! Da bicicleta!


Com o coração acelerado correu para conferir. Estava sendo apresentada uma peça que mostrava um julgamento. A princípio não viu nada. Ou melhor viu os atores já conhecidos contracenando. Pouco depois, quando mostraram o corpo de jurados, ela viu. Caracterizado como se tivesse uns quarenta anos! Mas era ele. Era Menino!

Naquela noite não conseguiu mais estudar.

A partir desse dia, na época não entendera porque, começou a ouvir uma cantilena preconceituosa contra os "artistas". Mesmo assim passou a ficar mais atenta aos figurantes. Sempre o via. Vez ou outra ele falava alguma coisa e, dependendo do personagem tinha sotaques e empostação de voz diferentes. Em sua cabeça ela conservava a lembrança de seu timbre voz quando ainda criança no grupo escolar.

Passaram-se os anos. Menina lembrou que no seu aniversário de 18 anos recebeu um telefonema. Era uma voz forte, mas a maneira de falar fazia lembrar alguém. Naquele dia não conseguiu saber. Aquela voz dizia que estava cumprindo um acordo feito há alguns anos: falaria com ela quando fizesse 18 anos. Na agitação da festa o assunto ficou quase esquecido. Agora, mais de quarenta anos depois, não sabe porque, ficou convicta: tinha sido Menino!

Com a idade adequada: 18 anos, ela arranjou namorados sem, contudo, deixar de acompanhar a carreira dele, fosse nos programas da TV, fosse nas revistas especializadas.

Quando um seu namoro ficou sério e o pretendente falou em casamento, a figura de Menino passou pela sua cabeça. A primeira vez que pensou em companhia para a vida inteira Menino era a parte principal do projeto.

Menina casou-se. Mudou de cidade.

Depois, muito depois, em uma das visitas a seus pais na cidade natal, Menina cruzou com Menino na Avenida Principal... Sustentaram o olhar uns cinco segundos a mais do que seria o normal...

Os devaneios de Menina foram interrompidos pelo filho que, abrindo a porta do carro, já dentro da garagem do prédio, perguntou:

-- Oi mãe! A senhora estava tão quieta! Cansada? Viagem longa essa de hoje!

-- 40 anos! Mais até...

-- Que é isso mãe? A senhora esta meio tonta?

-- Estou vivendo um momento próprio de meu tempo! Estou presa por um amor sem fim...


O riso dos filhos - que não entenderam nada -, a despertaram completamente... Então fingiu-se de bêbada...

No dia seguinte, depois de telefonar à sobrinha solicitando o nome exato do livro de crônicas, e onde havia sido comprado, pediu a um dos filhos que o adquirisse para ela.

Passados alguns dias, quando finalmente o livro chegou às suas mãos, releu as páginas que a impressionaram tanto. Poder-se-ia dizer que aquele trecho contava uma passagem de sua vida. Não havia nomes escritos, mas aquela era a sua história...

Só então se interessou em saber quem escrevera o livro. Na orelha a biografia e uma fotografia do autor!

Não conteve as lágrimas... Menino agora é um escritor...